Guia Completo para Entender, Tratar e Prevenir
Popularmente conhecida como “abrir a virilha” ou “puxão na virilha”, a lesão dos adutores da coxa é uma das queixas mais comuns entre atletas e praticantes de atividade física, especialmente em esportes que exigem movimentos rápidos, chutes e mudanças de direção. Essa lesão acomete a musculatura localizada na parte interna da coxa (o compartimento medial) e, embora possa ser bastante dolorosa, seu tratamento é, na grande maioria dos casos, conservador.
Neste guia completo, veremos tudo sobre a lesão dos adutores: desde a anatomia detalhada desses músculos, passando pelos mecanismos de lesão que afetam atletas, os sintomas, diagnóstico e as melhores estratégias para tratamento e prevenção. Casos recentes de atletas:
ANATOMIA
Quem são os músculos Adutores e o que fazem?
Músculos Adutores:
Os músculos adutores – Longo, Curto e Magno -, estão localizados na Compartimento Medial da Coxa, junto do músculo Grácil*. A Coxa Possui 3 Compartimentos – Anterior, Posterior e o Medial -, esses que são divididos entre si por fáscias ou septos intermusculares.
*De acordo com a literatura, pode haver outras classificações, incluindo outros músculos de menor relevância para esse tipo de lesão.

Esses músculos se dispõem de forma semelhante a um “sanduíche”: o primeiro, mais acima é o “pão” superior, isto é, o Adutor Longo; o Curto é o mais fino e com menor comprimento, sendo o “queijo”; o Magno é o “pão” da base, sendo o mais imponente. Todavia, o Adutor Magno é dividido em duas partes – adutora e do jarrete -, de modo que a parte adutora em si é menor que o Adutor Longo. Justamente por isso, a grande maioria das lesões ocorre no Adutor Longo.

Por que no longo? Como o nome já diz, é maior (produz mais força, logo, há maior risco de rompimento). Isso é evidenciado pela prática cotidiana de arrebentar um fio qualquer, como um barbante. Para romper, puxamos rápido (com mais força), aumentando a chance de rompimento, tal como faz o adutor longo em relação aos outros (puxa com mais força).
Além disso, ele é mais comprido, representando maior chance de romper em algum ponto. Se você possuir, por exemplo, 30 cm de comprimento de músculos adutores e 20cm deles forem de adutor longo, a chance do adutor longo ser lesionado é maior que os outros. Mas, apesar dessa chance ser maior, considerando um ponto aleatório qualquer do músculo, a grande maioria dessas lesões, como qualquer lesão muscular, ocorrem na Junção Miotendínea (entre ventre muscular e tendão), pois há uma maior fragilidade, isto é, possui menor tendência a esticar e maior a romper, nesse local. Nesse caso (adutores), a junção miotendínea está a aproximadamente 5cm do púbis.*

Esses músculos se originam (inserem proximalmente) na pelve, do osso do quadril chamado ilíaco, o qual é formado por 3 partes fundidas – ílio, ísquio e púbis. Os mm. Adutores tem origem na parte do Púbis. Os músculos trafegam na parte medial (interna) da coxa para se inserirem (distalmente) no Fêmur, como regra geral na linha áspera (diferentes locais da mesma conforme o músculo – Longo, Curto e Magno).
A Função principal desses músculos é a Adução (aproximar o membro da linha média do corpo), isto é, “mover a coxa para dentro”. Dessa forma, possuem importância em movimentos Rápidos. Para melhor entendimento, a literatura norte-americana traz o termo “quick sweeping motion”, traduzido como movimentos rápidos semelhantes ao cabo de uma vassoura ao varrer. Portanto, imagine o membro inferior direito realizando esse movimento, tal como estivesse varrendo, arrastando a sujeira varrida com o pé direito, se você é destro;
Mais informações sobre anatomia na tabela:

Agora que sabemos a anatomia, vamos entender como podem ocorrer as lesões nesses músculos e porque esses atletas se lesionaram nos respectivos lances:
⇒ à Forças contrárias que se opõem ao movimento natural; exemplo.:
- Chute no futebol travado por força em direção oposta à adução (como uma “dividida” no futebol), de maneira que o movimento é travado subitamente, causando ruptura de fibras
- Alongamento Excessivo, contrário ao movimento durante a contração
♦ A combinação desses fatores culminou no caso de LeBron, que estava caindo, com o corpo indo na outra direção e o pé fixo no solo. Então, a oposição ao movimento oferecida pelo travamento do pé, bem como o alongamento excessivo foram as causas. Enquanto o outro membro (perna direita) escorregou no solo para trás, a perna esquerda permaneceu presa, tendo o atrito com o pé esquerdo impedido que esse lado realizasse a adução, pois o pé travou o movimento. Esse fato, somado ao escorregão do pé direito, resultou no alongamento excessivo da região
⇒ à Movimentos Rápidos e Vigorosos. A fórmula da força se resume em “Fr = Massa x Aceleração”, de modo que quando maior a aceleração do movimento, maior será a Força Resultante (Fr) e a carga imposta às fibras musculares, e, consequentemente, a tendência ao rompimento. Exemplo:
- Arremates de Longa Distância ou com grande potência, o que demanda movimentos rápidos e maior aceleração.
*Os mecanismos de lesão acima podem ter suas chances de ocorrer aumentadas em tais situações:
1. Início das partidas, devido a um menor aquecimento, e consequente menor capacidade elástica (dilatação) do tecido, predispondo a rupturas. Nesse caso poderia se encaixar Neymar, visto que o primeiro episódio ocorreu aos 7 minutos da primeira etapa.
2. Final das partidas, em função da fadiga muscular e capacidade diminuída de contração conjunta dos músculos agonistas e antagonistas, causando desequilíbrios e lesões. Nesse caso poderia ser LeBron, pois a lesão aconteceu no terceiro quarto, mais próximo do final da partida
Graus de Lesões
Vamos entender o que significam os graus de lesões frequentemente veiculados pela mídia e sua correlação com os casos.*
*Há outras classificações, como demonstrado no Vídeo Inserido Nesse Post.
Nesse tipo de classificação para lesões musculares, existem 3 graus (I , II e III):
I – Dor mas sem perda de função
II – Dor e Função prejudicada
III – Dor e Perda completa de função
Agora que temos essa informação, podemos inferir que Neymar teve uma lesão de Grau I, visto que conseguiu atuar apenas 8 dias após o evento na partida contra Camarões. Além disso, a sua recidiva, no dia 02/12/18, confirma a hipótese de Grau I, pois ele foi substituído apenas no segundo tempo, após demonstrar desconforto na região em alguns lances com exigência da região ao longo do jogo, porém, sem ter apresentado sinais de perda de função.
Já no caso de LeBron James, o Grau II, como veiculado pela mídia, denuncia uma lesão mais grave, a qual é confirmada pelo tempo de ausência das quadras, tal como os sinais de perdas de funções e comprometimentos da marchas já observados no momento da lesão, o que contrasta com o vídeo de neymar, o qual apresenta apenas sinais de desconforto (dor leve).
Sinais e Sintomas da Lesão dos Adutores
Os sintomas variam conforme o grau da lesão, mas os mais comuns incluem:
- Dor aguda e súbita: Na parte interna da coxa ou na virilha, frequentemente descrita como um “puxão” ou “rasgo” no momento da lesão.
- Sensibilidade ao toque: A região afetada é dolorosa à palpação.
- Inchaço (edema) e Equimose (mancha roxa): Podem aparecer na área da lesão, especialmente em graus mais elevados.
- Dor ao realizar movimentos de adução: Ao tentar aproximar as pernas, cruzar as pernas ou chutar.
- Dor ao alongar os adutores: Ao tentar afastar as pernas.
- Fraqueza muscular: Dificuldade em realizar movimentos que exigem a força dos adutores.
- Dificuldade para caminhar, correr ou subir escadas: Em casos mais graves.
Diagnóstico da Lesão dos Adutores: Exame Clínico e Exames de Imagem
O diagnóstico da lesão dos adutores é feito através de uma combinação de:
- História Clínica: O médico perguntará sobre o mecanismo da lesão, os sintomas e a intensidade da dor.
- Exame Físico:
- Palpação: Identificação da área de dor e sensibilidade na virilha ou parte interna da coxa.
- Testes de Força: O médico pedirá para o paciente realizar movimentos de adução contra resistência para avaliar a força e reproduzir a dor.
- Testes de Alongamento: Avaliação da dor ao alongar os músculos adutores.
- Avaliação da Marcha: Observar se há claudicação ou dificuldade ao caminhar.
- Exames de Imagem:
- Ultrassom: É um exame útil para visualizar estruturas superficiais na região do púbis, tendões e músculos, principalmente na fase de recuperação para monitorar a regeneração do tecido. Pode mostrar hemorragia e edema.
- Ressonância Magnética (RM): É o exame mais detalhado e sensível para lesões musculares. A RM pode confirmar a lesão, identificar o grau, a localização exata (especialmente na junção miotendínea), e descartar outras condições. Ela visualiza hemorragia e edema no músculo.
- Raio-X: Geralmente não é útil para ver lesões musculares, mas pode ser solicitado para descartar fraturas por avulsão na pelve (na região do púbis), que podem ocorrer em traumas de alta energia e são um diagnóstico diferencial importante.
Diagnósticos Diferenciais Importantes: É crucial diferenciar a lesão dos adutores de outras condições que causam dor na virilha, como:
- Pubalgia (Osteíte Púbica): Uma condição crônica de dor na região do púbis, muitas vezes associada a desequilíbrios musculares e lesões crônicas dos adutores.
- Hérnias Inguinais: Podem causar dor na virilha.
- Impacto Fêmoro-Acetabular: Problemas na articulação do quadril.
- Lesões de outros músculos da coxa ou abdômen.
- Problemas na coluna lombar.
Tratamento e Recuperação da Lesão dos Adutores
O tratamento da lesão dos adutores da coxa é, na grande maioria dos casos, conservador (não cirúrgico). A capacidade de regeneração do tecido muscular é limitada, pois há poucas células satélite (células-tronco) para produzir novas fibras musculares contráteis. O que se forma é um tecido cicatricial fibroso, que é menos elástico e mais propenso a novas lesões se não for bem reabilitado.
Abordagem Conservadora:
- Fase Aguda (Controle da Dor e Inchaço):
- Repouso Relativo: Evitar atividades que causem dor.
- Gelo (Crioterapia): Aplicações de gelo na área afetada para reduzir o inchaço e a dor.
- Compressão: Uso de faixas ou compressas para controlar o edema.
- Elevação: Manter a perna elevada para ajudar na drenagem.
- Analgésicos: Para controle da dor. O uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) deve ser cauteloso, especialmente os não seletivos, devido ao risco de excesso de hemorragia na fase inicial.
- Fase de Reabilitação (Fisioterapia):
- É o pilar do tratamento e deve ser um programa ativo e direcionado.
- Alongamentos: Graduais e indolores, para restaurar a flexibilidade.
- Fortalecimento Progressivo: Inicia com exercícios isométricos (sem movimento), progredindo para exercícios isotônicos (com movimento) e, finalmente, exercícios funcionais e específicos do esporte. O fortalecimento deve abranger não só os adutores, mas também os abdutores e a musculatura do core (abdômen e lombar) para restabelecer o equilíbrio da pelve. Estudos mostram que fortalecer tanto adutores quanto abdutores diminui significativamente o percentual de novas lesões.
- Propriocepção e Equilíbrio: Exercícios que melhoram a coordenação e a capacidade do corpo de perceber sua posição no espaço.
- Retorno Gradual ao Esporte: A progressão deve ser feita com cautela, sem pular etapas. O retorno precoce, como no caso de Neymar, pode levar a recidivas e agravar a lesão, pois o tecido cicatricial é mais fraco e menos elástico.
Quando a Cirurgia é Necessária?
A cirurgia é uma exceção e é reservada para casos muito específicos:
- Rupturas Completas (Grau III) com Avulsão Óssea: Quando o tendão se descola do osso, levando um pedaço do osso junto.
- Falha do Tratamento Conservador: Em casos raros onde a dor e a fraqueza persistem apesar de um programa de reabilitação adequado e prolongado.
Tempo de Recuperação e Prognóstico
O tempo de recuperação para a lesão dos adutores varia consideravelmente de acordo com o grau da lesão e a adesão ao programa de reabilitação:
- Grau I (Leve): Geralmente, a recuperação ocorre em 2 a 4 semanas.
- Grau II (Moderada): Pode levar de 4 a 8 semanas, podendo se estender em casos mais complexos.
- Grau III (Grave): A recuperação é mais longa, variando de 6 a 12 semanas, e em alguns casos, até meses, especialmente se houver necessidade de cirurgia ou complicações.
É fundamental não apressar o retorno às atividades, especialmente as esportivas de alta demanda. O prognóstico para a lesão dos adutores é geralmente bom com um programa de reabilitação ativo e bem direcionado, focado no fortalecimento da pelve como um todo. No entanto, um retorno precoce ou uma reabilitação inadequada aumentam significativamente o risco de recidivas e de cronicidade da dor.
A lesão dos adutores da coxa, ou a famosa “abrir a virilha”, é uma condição que exige atenção e um tratamento adequado para garantir uma recuperação completa e evitar recidivas. Entender a anatomia, os mecanismos de lesão e a importância da reabilitação conservadora é o primeiro passo para lidar com essa dor e voltar às suas atividades com segurança.
Se você está enfrentando dor na virilha, teve um “puxão” durante uma atividade física ou suspeita de uma lesão nos adutores, o diagnóstico preciso e um plano de tratamento personalizado são cruciais para sua recuperação.
Este vídeo é uma amostra da profundidade do nosso conteúdo. Para aprofundar-se em todos os detalhes das lesões musculoesqueléticas, conheça o Curso Anatomia de Lesões Esportivas®:
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Importante: As informações contidas neste artigo são apenas para fins educacionais e não substituem o aconselhamento médico profissional. Sempre consulte um médico qualificado para qualquer dúvida sobre sua condição de saúde.

