Lesão muscular mais comum de todas. Pode envolver qualquer um dos músculos localizados no compartimento posterior de coxa; todavia, o mais acometido é o bíceps femoral, localizado na parte lateral. O movimento clássico da lesão ocorrer em “sprints”.
Lesões de Isquitibiais, também chamados de Posterior de Coxa, Flexores da Coxa ou Músculos do Jarrete:
Vídeo breve apresentando a lesão:
Sobre a Lesão
É a lesão muscular mais comum. Segundo estudo da UEFA sobre lesões em clubes europeus de futebol, 35% de todas as injúrias são musculares, sendo aproximadamanente metade delas na Coxa; tendo acometido essa região (coxa), a chance é de 70% que seja na região Posterior (Isquiotibiais).

Quem são esses Músculos?
Anatomia
A coxa, região anatômica entre Quadril e Joelho, possui 3 Compartimentos Musculares – Anterior, Medial e Posterior. A Loja Anterior, em síntese, realiza a extensão do joelho/perna, já a Medial a Adução da Coxa, a qual foi Lesionada recentemente em LeBron James e Neymar Jr. O compartimento Posterior , é composto por 4 músculos: Semimembranoso, Semitendíneo, Bíceps Femoral e parte do Adutor Magno (parte do jarrete, o que é isso? Explicação abaixo). 3 deles são chamados de Isquiotibiais, pois possuem inserções semelhantes, como veremos a seguir.



Os isioquiotibiais, como o nome já sugere, estão inseridos:
● Proximalmente: Ísquio (parte mais caudal/inferior do osso do quadril, exatamente na proeminência óssea na qual se sente dor por sentar por longos perídos).
● Distalmente: região posterior da Tíbia – maior osso da perna (região anatômica entre joelho e o tornozelo).
Daí se forma o nome: Ísquio + Tibiais (= Isquiotibiais). Dessa maneira, a contração dessa musculatura irá gerar, preferencialmente, a Flexão da Perna/ Joelho (aproximação do calcanhar à região glútea) – Figura A-, bem como, em menores graus, também pode realizar a Extensão da Coxa/do Quadril (movimentar a coxa – região entre o quadril e o joelho – em sentido posterior; em outras palavrás, “apontar o #bumbum para a nuca”) – Figura B.”.

Essa musculatura também recebe o nome de Músculos do Jarrete. O termo é originado da antiga prática de pendurar o quadril e coxa de animais através destes tendões; “jarretar” era uma prática utilizada em tempos de guerra, na qual eram cortados os tendões dos músculos posteriores da coxa dos cavalos inimigos (ou dos inimigos) tornando o animal incapaz de andar.
Como ocorre a lesão?
As lesões de Loja Posterior, bem como a maioria das lesões musculares, ocorre nos movimentos onde é imposta maior tensão sobre as fibras musculares. Obtém destaque situações em que a velocidade varia em um curto espaço de tempo – grande aceleração (aceleração = variacão de velocidade/tempo):
⇒ Tiros/Arrancadas (Sprints), especialmente, em movimento de Desaceleração (Contração Excêntrica*), onde, sabidamente, ocorre maior rompimento de fibras.
*Contração excêntrica, em resumo, é um movimento no qual ocorre contração do músculo e seu encurtamento diminui, é uma contração que objetiva controlar o retorno à posição inicial, “frear a volta”. É o contrário da contração Concêntrica, na qual o músculo contrai e diminui seu comprimento (encurta).
O motivo da contração excêntrica causar maior rompimento de fibras é simples: a função principal do músculo é gerar movimento, o que ocorre pelo encurtamento de suas fibras – contração concêntrica -, e não “frear a volta do encurtamento” – contração excêntrica. Por esse motivo, é mais dispendioso para o músculo, contrair excêntricamente, tanto pela especialização mecânica em encurtar, e não “desencurtar”, tanto pelo comando neuromuscular – é menos complexo contrair subitamente um músculo do que retornar, paulatinamente e de maneira controlada a sua posição neutra; além do mais, a contração excêntrica necessita de comandos centrais mais refinados e constantes do que um simples comando de encurtamento.
Um exemplo concreto dessa contração (excêntrica) ocorre na musculação: o retorno após o encurtamento do bíceps braquial, na rosca direta:

⇒ Chutes
Por que ocorre?
Primeiro, por que ocorre uma lesão muscular:
Por quê? A contração súbita das fibras dessa região exige uma grande força em um curto período de tempo, predispondo a ruptura. Um exemplo prático para tornar mais claro: o rompimento de um fio (barbante). O movimento é feito propositalmente de maneira abrupta, impondo maior força dividida por unidade de tempo, o que caracteriza maior potência (Potência = Força / Tempo)
Dessa maneira (com maior potência), as fibras musculares possuem maior chance de se lesionarem, em outras palavras, de ultrapassar seu limiar fisiológico de deformação, bem como ocorre com um barbante quando arrebenta.
O músculo apresenta propriedades como qualquer outro material, como mostra a imagem abaixo:

Agora vamos traduzir o que esse gráfico significa em tópicos:
- Todos materias podem se dilatar (alterar suas dimensões), e com o músculo não é diferente
- De acordo com o material, é possível ocorrer maior deformação elástica (dilatar e voltar a seu formato inicial sem alterar suas propriedades)
- A partir de certo ponto, ocorre a deformação Plástica, momento no qual o material passa a perder suas propriedades, não voltando ao normal mesmo quando cessado o estímulo deformante. É a partir desse ponto que inicia a ruptura das fibras musculares
- Por fim, ocorre a Falência Total, que no músculo equivale a uma ruptura total dos tecidos.
Em Resumo:
A maior potência imposta ao tecido muscular em determinados movimentos sobrecarrega a fibra a “esticar” mais do que o permitido fisiológicamente (deformação elástica), passando a sofrer lesões (deformação plástica), podendo chegar a uma ruptura total (falência total)
*Crimp: enrugamento das fibras, isto é, quando ainda não estão sequer completamente esticadas, o que, no músculo ocorre em aproximadamente 2% de aumento no comprimento das fibras (vide o gráfico)
Imagem Retirada de Vídeo a Respeito de Lesões Musculares do Dr. André Pedrinelli**
**Integrante da Equipe Médica da Copa do Mundo da Rússia de 2018, o qual tive a oportunidade de conhecer.
Agora, por que ocorre nessa região:
Fatores anatômicos
- A Configuração dos Músculos:
Os Isquiotibiais (Semitendinoso, Semimembranoso e Bíceps Femoral), somam 3 músculos, os quais apresentam, majoritariamente, a mesma função principal: Flexao do Joelho. Apesar desse grande número de músculos ser benéfico em termos de potencialização do movimento, há um problema: a Sincronização. Os 3 músculos precisam atuar como uma perfeita orquestra, isto é, contrair Concêntrica e Excêntricamente em conjunto para que não ocorra a sobrecarga em algum dos músculos e a consequente injúria.
O Bíceps Femoral é quem mais sofre nesse processo, tendo a maior incidência de lesão
Dessa maneira, a contração harmônica pode ser muito desafiadora considerando as diferenças entre as inserções, as áreas de secção transversa musculares e os comprimentos dos tendões desses músculos, o que gera grande discrepância entre os vetores de força no momento da contração.
- Músculos Biarticulares:
Por suas inserções cruzarem duas articulações, são responsáveis por mais de uma ação principal. Nesse caso, além da Flexão do Joelho, a Extensão do Quadril. Por esse motivo, requerem um sinergismo ainda maior. Esse que, se falhar, resultará em lesão.
- Músculos Geradores de Grande Potência:
Por estarem envolvidos significativamente na Marcha, esses músculos precisam gerar grandes forças para a locomoção, o que predispõem o rompimento. O índice de lesões ainda pode aumentar: caso o atleta possuir maior proporção de Fibras Rápidas (tipo II)*, devido a maior potência que elas geram. Isso pode ser evidenciado em atletas de grande explosão múscular com frequentes lesões de posterior de Coxa em sua carreira, como Douglas Costa, Arjen Robben e Alexandre Pato
*Também chamadas de Brancas, por terem menos mioglobina e consequentemente utilizarem preferencial o metabolismo anaeróbico/glicolítico, o qual fornece energia de forma mais rápida.
Também, há outros fatores que contribuem para lesões musculares em geral:
- Lesões Prévias: após uma lesão muscular, dependendo do grau, pode ser formado tecido cicatricial fibrótico, visto que a regeneração do tecido muscular esquelético é limitada. Assim a regeneração occore às custas de fibroblastos, células sem capacidade de contração (por isso o músculo pode perder potência) e mais rígidas que o células musculares. Consequentemente, o local da lesão possui menor capacidade de sofrer deformação elástica (citada no gráfico acima), assim é mais suscetível à lesões (deformações plásticas ou falência total).

- Baixas temperaturas no Músculo: pode ser por por frio ou aquecimento mal realizado. Qualquer material em baixas temperaturas possui menor grau de dilatação. Portanto, se torna menos passível de deformação elástica (estica menos e retorna ao seu comprimento inicial sem ter lesão) quando imposta determinada carga ao tecido, assim predispondo ao rompimento.
- Também podem ser citados: idade, desequilíbrio muscular, condição física, fadiga (quantidade de jogos), e talvez a flexibilidade (fator incerto quanto às evidências científicas).
Alguns Casos De Lesões de Posterior de Coxa:

Classificação da Lesão dos Isquiotibiais: Entendendo os Graus
As lesões musculares são classificadas em três graus, que indicam a gravidade e influenciam diretamente o tempo de recuperação e o prognóstico:
- Grau I (Leve): Dor, mas sem perda de função significativa. Envolve um estiramento ou micro-rupturas de poucas fibras musculares.
- Grau II (Moderada): Dor e função prejudicada. Há uma ruptura parcial de um número maior de fibras musculares
- Grau III (Grave): Dor intensa e perda completa de função. Representa uma ruptura de alto grau do músculo ou tendão. Geralmente, há um defeito palpável.
Sinais e Sintomas da Lesão de Posterior de Coxa
Os sintomas variam conforme o grau da lesão, mas os mais comuns incluem:
- Dor aguda e súbita: Na parte de trás da coxa, frequentemente descrita como um “puxão”, “estalido” ou “rasgo” no momento da lesão.
- Sensibilidade ao toque: A região afetada é dolorosa à palpação.
- Inchaço (edema) e Equimose (mancha roxa): Podem aparecer na área da lesão, especialmente em graus mais elevados.
- Dor ao realizar movimentos: Principalmente ao flexionar o joelho contra resistência, estender o quadril ou alongar a parte posterior da coxa.
- Fraqueza muscular: Dificuldade em realizar movimentos que exigem a força dos isquiotibiais.
Diagnóstico da Lesão dos Isquiotibiais: Exame Clínico e Exames de Imagem
O diagnóstico é feito através de uma combinação de:
- História Clínica: O médico perguntará sobre o mecanismo da lesão (ex: sprint, chute), os sintomas e a intensidade da dor.
- Exame Físico:
- Palpação: Identificação da área de dor e sensibilidade na parte posterior da coxa.
- Testes de Força e Alongamento: Avaliação da dor e fraqueza ao realizar movimentos de flexão do joelho (com rotação interna e externa) e extensão do quadril, e ao alongar os isquiotibiais.
- Exames de Imagem:
- Ultrassom: Pode ser útil para visualizar estruturas superficiais, principalmente na fase de recuperação para monitorar a regeneração do tecido.
- Ressonância Magnética (RM): É o exame mais detalhado e sensível para lesões musculares. A RM pode confirmar a lesão, identificar o grau, a localização exata e descartar outras condições.
- Raio-X: Geralmente não é útil para ver lesões musculares, mas pode ser solicitado para descartar fraturas por avulsão do ísquio, que podem ocorrer em traumas de alta energia.
Tratamento e Recuperação da Lesão dos Isquiotibiais
O tratamento da lesão de posterior de coxa é, na grande maioria dos casos, conservador (não cirúrgico). A capacidade de regeneração do tecido muscular é limitada. A cicatrização ocorre às custas de fibroblastos, formando um tecido fibroso que é menos contrátil e mais rígido que o tecido muscular original, tornando o local mais suscetível a novas lesões.
É fundamental não apressar o retorno às atividades, especialmente as esportivas de alta demanda. O prognóstico para a lesão dos isquiotibiais é geralmente bom com um programa de reabilitação ativo e bem direcionado. No entanto, um retorno precoce ou uma reabilitação inadequada aumentam significativamente o risco de recidivas e de cronicidade da dor. “Se retorna a jogar de forma precoce ou não reabilitada, o prognóstico muitas vezes ele pode ser ruim.”
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Dr. Daniel Strohschoen Bohn CRM 55355
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