O Ligamento Cruzado Posterior (LCP) é uma estrutura crucial que impede a translação posterior da tíbia sobre o fêmur. Lesões no LCP, embora menos comuns que as do LCA, são frequentemente causadas por trauma direto na tíbia com o joelho flexionado ou por hiperextensão severa. O LCP atua principalmente quando o joelho está flexionado e a lesão pode apresentar sintomas como dor, inchaço discreto e instabilidade. O tratamento é frequentemente conservador, com cirurgia reservada para casos complexos ou instabilidade persistente.
Casos dessa lesão veiculados na mídia:
- Rodrigo Moledo, SC Internacional, 2021:
- Fernando Regis, SC Internacional, 2025:
Introdução: O Ligamento Cruzado Posterior e a Estabilidade do Joelho
O joelho é uma das articulações mais complexas do corpo, e sua estabilidade é garantida por um conjunto de ligamentos, sendo quatro os principais: os dois colaterais (medial e lateral) e os dois cruzados (anterior e posterior). A ruptura do Ligamento Cruzado Posterior (LCP), embora menos comum que a do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), é uma lesão significativa que pode comprometer a função do joelho.
O LCP atua como um espelho do LCA. Enquanto o LCA impede a translação anterior da tíbia sobre o fêmur, o LCP é o principal responsável por evitar a translação posterior da tíbia. Além disso, ambos os ligamentos cruzados também evitam movimentos rotacionais e traumas em valgo e varo quando o joelho está em extensão.
Uma característica importante do LCP é que sua banda mais grossa e forte, a banda anterolateral, está mais tensa e atuante quando o joelho está em flexão. Isso é o oposto do LCA, cuja banda principal está mais tensa em extensão.
Assista a este vídeo para uma explicação detalhada sobre a anatomia e os mecanismos de lesão do Ligamento Cruzado Posterior:
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Mecanismos de Lesão do Ligamento Cruzado Posterior
A ruptura do LCP pode ocorrer de diferentes maneiras, mas podemos simplificar em dois mecanismos principais:
- Força de Translação Posterior da Tíbia:
- Este é o mecanismo mais clássico e ocorre quando uma força empurra a tíbia para trás em relação ao fêmur.
- Trauma em “Dashboard Injury” (Lesão do Painel): Comum em acidentes automobilísticos, onde o joelho flexionado do passageiro bate no painel.
- Impacto Anterior na Tíbia: Uma queda sobre o joelho flexionado, com o impacto direto na parte da frente da tíbia.
- Exemplo no Esporte: O vídeo cita o caso do jogador Rodrigo Moledo, que sofreu uma ruptura isolada do LCP após uma queda com o joelho flexionado e um trauma anterior na tíbia.
- Hiperextensão do Joelho:
- Este mecanismo ocorre quando o joelho se estende além de seu limite normal.
- Quando o joelho passa dos 30 graus de hiperextensão, o LCP pode lesionar.
- É importante notar que, em casos de hiperextensão severa, o LCA geralmente é o primeiro a lesionar, e somente com uma energia ainda maior o LCP também pode ser afetado, como no caso do jogador Ibra, que teve lesões de LCA e LCP.
- Grandes energias, como um golpe anterior ou trauma anterior na tíbia, podem levar a lesões multiligamentares complexas (luxações femorotibiais), como o caso do jogador Marcelo.
Sintomas da Ruptura do LCP: Um Quadro Menos Dramático Inicialmente
Ao contrário da ruptura do LCA, que frequentemente causa um edema exuberante, um estalido audível e instabilidade imediata, a lesão do LCP pode ter um quadro inicial menos claro.
- Ausência de Estalido: Muitos pacientes não ouvem um estalido no momento da lesão.
- Inchaço (Edema) Tardio ou Menor: O inchaço articular pode não ser tão volumoso inicialmente e só aparecer horas ou dias depois.
- Capacidade de Deambular: Frequentemente, o atleta consegue caminhar e até mesmo continuar a atividade física, como no caso do Rodrigo Moledo, que treinou e jogou após a lesão, com o diagnóstico sendo confirmado dias depois devido ao inchaço.
- Instabilidade Menor: A instabilidade inicial pode não ser tão pronunciada, mas a tíbia tende a ficar “caída” para trás em relação ao fêmur.
Diagnóstico da Ruptura do LCP: Exame Físico e Imagem
O diagnóstico da ruptura do LCP baseia-se na história clínica, exame físico detalhado e exames de imagem.
Testes Específicos no Exame Físico:
- Queda Posterior da Tíbia: Visualmente, a tíbia pode parecer afundada ou “caída” para trás em relação ao fêmur (sinal da gaveta posterior passiva ou posterior sag sign).
- Teste de Godfrey: Avalia a queda posterior da tíbia.
- Teste de Gaveta Posterior: É o teste especial mais sensível para o LCP. É realizado com o joelho flexionado a 90 graus, pois é nessa posição que a banda anterolateral (a mais forte do LCP) está tensa.
- Teste do Quadríceps Ativo (Quadriceps Active Test): O paciente tenta contrair o quadríceps, o que causa uma anteriorização da tíbia, reduzindo a subluxação posterior.
- Teste do Dial (Dial Test): Ajuda a diferenciar a lesão isolada do LCP de lesões associadas do canto posterolateral (CPL).
- Avalia a rotação externa da tíbia sobre o fêmur.
- Em 90 graus de flexão, avalia-se o LCP.
- Em 30 graus de flexão, avalia-se o CPL.
- Uma diferença de mais de 10 graus de rotação externa entre o joelho lesionado e o saudável indica positividade.
Exames de Imagem:
- A ressonância magnética (RM) é o exame de imagem que confirma o diagnóstico da ruptura do LCP e permite avaliar a presença de lesões associadas em outras estruturas ligamentares, meniscos ou cartilagem.
Tratamento da Ruptura do LCP: Conservador na Maioria dos Casos
Diferente do LCA, o tratamento da ruptura do LCP é, via de regra, conservador na maioria dos casos, especialmente em lesões de baixo grau (Grau I e II). Os resultados da cirurgia para LCP não são tão consistentemente bons quanto para o LCA, e o ligamento tem um potencial de cicatrização maior.
Tratamento Conservador:
- Repouso e Modificação de Atividades: Evitar atividades que gerem estresse posterior no joelho.
- Fisioterapia: Essencial para fortalecer os músculos do quadríceps (que ajudam a anteriorizar a tíbia e compensar a lesão do LCP), melhorar o controle neuromuscular e a estabilidade funcional do joelho.
- Órteses: Em alguns casos, o uso de órteses específicas pode ajudar a estabilizar o joelho durante a fase de cicatrização.
- Exemplo de nova órtese que permite mais mobilidade precoce por meio da biomecânica e novas tecnologias: PCL dynamic brace

Tratamento Cirúrgico:
A cirurgia é geralmente considerada em situações específicas:
- Graus Avançados de Lesão (Grau II ou III) em Atletas de Alto Desempenho: Especialmente se houver instabilidade significativa.
- Lesões Ligamentares Associadas: Quando há ruptura de outros ligamentos importantes (lesões multiligamentares), como o LCA ou estruturas do canto posterolateral.
- Lesão de Menisco ou Cartilagem Associada: Que necessitem de reparo.
- Instabilidade Crônica e Sintomática: Quando o tratamento conservador falha e o paciente continua com dor e instabilidade.
- Avulsões Ósseas: Onde o ligamento se desprende do osso levando um fragmento ósseo. Em grandes avulsões, a fixação cirúrgica do fragmento pode ser indicada.
A cirurgia de reconstrução do LCP utiliza enxertos (semelhante ao LCA) para substituir o ligamento rompido. É um procedimento complexo e os resultados são debatidos na literatura médica.
Prognóstico e Complicações a Longo Prazo:
Embora muitos pacientes se recuperem bem com o tratamento conservador, a lesão não tratada ou a instabilidade crônica do LCP pode levar a complicações a longo prazo, como osteoartrite, inicialmente na articulação femoropatelar e, posteriormente, na parte medial da articeração femorotibial.
Sobre o Dr. Daniel Bohn: Médico pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Bicampeão Brasileiro: Olimpíada de Anatomia (Elsevier), 1º Lugar – Olimpíada Nacional de Ortopedia (PUC-Camp). Produzo conteúdos para transmitir o conhecimento que me permitiu conquistar esses títulos.
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