
Até o século XIX o número de cores conhecido era muito reduzido, devido ao fato dos pigmentos utilizados serem baseados em matéria orgânica. Desta forma, somente pessoas com bons atributos financeiros conseguiam adquirir materiais adequados para pinturas, etc. O restante dos artistas ficava bastante limitado a essências de plantas e outras substâncias encontradas na natureza para realizar suas obras. Com a evolução da computação gráfica no século XX e até os dias de hoje, temos uma infinidade de cores disponíveis a todos, ao alcance de nossos olhos frente às telas do cinema, das televisões, dos computadores, dos celulares, dos tablets, etc. Não é à toa que a tela atrai tanto a atenção do ser humano e o encanta de forma perturbadora.
A evolução da tecnologia e a consequente facilidade no acesso a na manipulação das cores, no entanto, não resultaram na banalização da escolha da cor para um fim específico. Muito pelo contrário, cada vez mais pesquisas mostram o quão complexo é o processo da percepção das cores pelo ser humano. É neste cenário que nos remetemos ao estudo da psicologia das cores.
Fraser e Banks (2007) defendem que, apesar dos webdesigners terem à sua disposição uma infinidade de combinações e paletas de cores diferentes, é necessário que contenham o entusiasmo exagerado se desejam que suas criações sejam admiradas pela maioria dos usuários comuns.
Ao pesquisar sobre a psicologia das cores a grande maioria das fontes trata basicamente da separação destas em duas categorias: cores quentes e cores frias. As cores quentes, como o vermelho, o laranja, além do amarelo e o roxo, até determinada tonalidade, são reconhecidas consensualmente como cores que nos dão uma sensação de calor, peso e excitação. Por outro lado, as cores frias como o azul, o verde e demais faixas do amarelo e do roxo, produzem percepções de frio, leveza, transparência e calma. Esta classificação, no entanto, é tênue e simples demais para que se possa conduzir a um bom entendimento dos elementos de um site ou de uma campanha publicitária, por exemplo.
Ok, então teremos que aprofundar mais… Quando uma pessoa vê determinada cor, na realidade não é a cor em si que gera a ideia que lhe é transmitida, mas sim a cor em função de algo, em relação a determinado uso para qual esta cor está sendo utilizada (FARINA, 1990). Em outras palavras, as cores geram estímulos psicológicos no ser humano, interferindo na percepção do que é bom ou ruim, positivo ou negativo, quente ou frio, atrativo ou repulsivo, etc. É importante ressaltar que se trata de um assunto muito relativo, visto que, apesar da estrutura visual humana ser idêntica em todos os indivíduos, com exceção daqueles que apresentam alguma deficiência tal como o daltonismo, nossas estruturas biológicas não são exatamente iguais, possibilitando percepções com razoáveis diferenças entre duas pessoas visualizando o mesmo objeto. Ou seja, um azul para o sujeito A pode ser diferente de um azul para o sujeito B e assim por diante. Obviamente não vamos considerar essa uma premissa máxima, caso contrário já desistiríamos por aqui. É preciso projetar mirando o centro do alvo e considerar a certeza de que, fatalmente, alguns não serão atingidos em cheio.
A cultura na qual o receptor da mensagem está inserido é um dos fatores que devem ser levados em conta quando fazemos uma análise da psicologia das cores, de acordo com a citação abaixo:
Os costumes sociais são fatores que intervêm nas escolhas das cores. Por exemplo, em determinadas culturas, é hábito diferenciar, através da cor, as vestes das mulheres mais idosas das vestes usadas pelas mais jovens. O mesmo se pode observar na diferenciação dos sexos – FARINA, 1990.
Conclui-se, portanto, que de certa forma o entendimento comum sobre determinada cor é capaz de induzir o indivíduo a relacionar essa cor com determinado objeto, ideia ou sensação de senso comum. Hábitos sociais estabelecidos durante longos espaços de tempo orientam inclinações individuais. Para outro exemplo, vamos pensar na cultura ocidental, que tem como característica relacionar a cor rosa com as crianças do sexo feminino e o azul com as do sexo masculino, ou ainda o branco com paz, tranquilidade e pureza e o preto como luto.
É possível também que a preferência de uma pessoa por uma determinada cor esteja associada a experiências agradáveis ou traumas sofridos no seu passado. Desta forma, quando falamos dos efeitos psicológicos que as cores podem causar em um determinado grupo de pessoas, mesmo que estes indivíduos estejam inseridos em uma cultura semelhante, suas memórias podem vir a interferir subconscientemente na interpretação das mesmas (ARNHEIM, 1997). Este é um fator que torna ainda mais subjetivo o trabalho com os usuário a partir das cores.
Em seu livro Psicodinâmica das Cores em Comunicação, Farina (1990) faz uma reflexão sobre o uso da memória na compreensão das cores. Segundo ele, é evidente que o que vemos em outra época das nossas vidas interfere na interpretação dos objetos que vemos a cada dia que passa:
(…) assim, chegamos à conclusão de que um fato é inegável: mesmo que haja uma parte instintiva na reação à cor, é indiscutível que o homem vai acumulando em sua memória experiências que o definem e o fazem agir de determinadas maneiras no decorrer de sua vida – FARINA, 1990.
Gérard (1970) é outro pesquisador que estuda a modificação do comportamento humano pela experiência e pela memória. Ele afirma que “a memória é a modificação do comportamento humano pela experiência”. Gérard também revela que a região do cérebro responsável pela identificação das cores e quaisquer relações estéticas entre elas chama-se córtex visual. Esta mesma região cerebral ocupa-se das sensações conscientes. Desta forma, conclui-se que a visão cromática do indivíduo e a interpretação que este dá destas cores estão relacionadas ao desenvolvimento e à educação do indivíduo. Ou seja, se aprende desde criança que determinadas cores “servem” para X ou para Y.
Schachtel (1946) diz que a interpretação da cor é um ato passivo, e é a interpretação da forma que exige do indivíduo um pensamento mais organizado. Justifica-se, assim, o uso intenso das cores no meio publicitário como forma de sugerir algo pré-determinado ao receptor passivo. Um ótimo exemplo é o logotipo da rede de restaurantes fast food McDonald’s. O amarelo intenso é usado para gerar ansiedade, o vermelho também gera excitação e fome. Além disso, existe ligação com elementos físicos consumidos em quantidade no ambiente da lanchonete, como o queijo e a mostarda, amarelos, e a carne e o ketchup, vermelhos. As duas cores juntas, presentes em grande quantidade dentro do ambiente, estimulam seus clientes a comerem mais e mais rapidamente.
Concluindo, não é afirmando que a cor A ou B é a mais indicada para ilustrar um botão de ação de compra em uma interface, por exemplo, que este assunto estará resolvido. Todos os fatores, sociais, culturais, pessoais e cognitivos, devem ser considerados quando o foco é o alto grau de satisfação e experiência subjetiva do usuário. Este texto tem o objetivo apenas de ressaltar as variáveis que estão envolvidas no complexo mundo da subjetividade do usuário.
Referências:
- FARINA, Modesto. Psicodinâmica das Cores em Comunicação. São Paulo: Edgard Blücher, 1990. [compre]
- FRASER, Tom; BANKS, Adam. O Guia Completo da Cor. São Paulo: Senac, 2007. [compre]
- GUIMARÃES, Luciano. A Cor Como Informação: a construção biofísica, lingüística e cultural da simbologia das cores. São Paulo: Annablume, 2000. [compre]